Descrição
A literatura brasileira da segunda metade do século XX testemunhou o surgimento de autores cuja escrita transitou com notável fluidez entre o humor, a crítica social e o diálogo com outras formas de arte. Entre esses escritores, Moacyr Scliar ocupa um lugar de destaque. Médico, cronista, romancista e contista, Scliar construiu uma obra marcada pela reflexão sobre a identidade judaica, pela ironia aguda e pela permanente abertura ao diálogo com a cultura popular e com as mídias contemporâneas. Nesse contexto, o livro Pega pra Kaputt! (1977) representa um caso singular em sua produção e um experimento estético de grande originalidade. Produzido em parceria com Josué Guimarães, Luis Fernando Veríssimo e o cartunista Edgar Vasques, o livro combina narrativa em prosa e histórias em quadrinhos, explorando uma forma de intermidialidade composicional que antecipa preocupações estéticas hoje amplamente discutidas. O presente estudo busca identificar os traços estilísticos e temáticos de Moacyr Scliar presentes em Pega pra Kaputt!, destacando como sua participação confere unidade e profundidade à narrativa coletiva. Além de investigar a presença do humor — em especial o humor judaico, marca registrada do autor —, o trabalho examina a forma como Scliar dialoga com o cinema, com a cultura de massa e com a tradição literária. Ao mesmo tempo, a análise propõe refletir sobre o conceito de autoria compartilhada, observando de que modo a escrita a várias mãos desafia a noção clássica de autoria individual e de voz unívoca.






